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Pirraça pai, pirraça mãe, pirraça filha

As luzes se apagam, e o silêncio toma conta da Sala Preta. O palco é cercado, nos quatro cantos, pela plateia, que aguarda o início do espetáculo. Na sexta noite do Inverno Cultural, o grupo AFO!TA Teatro, formado por recém-graduados da UFSJ, presenteou o público com uma apresentação divertida, reflexiva, musical, política e conflitante como a própria vida.

Com direção de Marcos Fonseca e texto construído coletivamente, a montagem desenvolve-se a partir do tema das relações familiares. Trata do vínculo de diferentes personagens com suas famílias e casas, ou morada, como o próprio título revela. As cenas vão e vêm, sem narrativa linear, revelando personagens que não têm nome determinado. Algumas delas são apresentadas apenas como mãe, pai, filha ou filho.

Três fatores contribuem para aproximar o público e conquistar seu apreço e atenção. Primeiro, a linguagem informal que dispensa mesóclises e por vezes ignora a norma culta. Segundo, os diálogos bem construídos evocam o que há de mais comum na vida de todos nós: o cotidiano doméstico e seus momentos de afeto e atrito, paixão e desencanto. Para além disso, a música, que serve tanto de ambiente quanto de eixo temático.

Num momento, uma mãe e sua filha preparam um bolo enquanto conversam sobre a importância dos ovos para a massa e de um namoro para a menina. Logo depois, vemos um diálogo truncado, travado entre um pai distante e seu filho introspectivo, a respeito de sua formatura e demais aspectos da vida de um jovem. A cada cena, é retratada uma situação diferente que, apesar do ineditismo, não é novidade para nossos olhos. Pois, afinal de contas, o que é encenado por Alessandra Silva, Kaike Barto, Priscila Natany e Roger Xavier faz parte de nosso cotidiano, de nossa cultura.

À medida que a montagem se desenvolve, as relações familiares são tratadas numa perspectiva mais séria. No curto intervalo entre uma cena e outra, uma gravação soa pelos alto-falantes da Sala, reverberando relatos de mulheres sobre suas frustrações com a vida e o matrimônio. O tom de frustração volta a se repetir num monólogo interpretado por Priscila Natany, em que uma mãe e esposa se queixa do seu casamento, do sexo que não satisfaz e do peso do trabalho doméstico sobre suas costas.

De forma clara e direta, Morada aborda de forma leve e delicada temas familiares, conduzindo a plateia não apenas para a diversão, mas também para a reflexão sobre o lugar ocupado pela mulher (mãe, esposa ou filha) na sociedade. Também trata da relação entre pais e filhos, dos atritos entre irmãos e outras modalidades de intriga familiar.

Texto: João Vitor Bessa
Edição: Rogério Alvarenga
Foto: espetáculo Morada, 30° Inverno Cultural UFSJ. Crédito: Isabela Roldão
Publicado em: 1° de agosto de 2018


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