NOTÍCIAS

O grande exército do rap toma a Praça!

Como tudo o que é bom um dia acaba, o 30º Inverno Cultural da UFSJ chegou ao fim no domingo, 29, depois de aquecer a cena artística e cultural da cidade durante nove dias. Coube à rapper Tamara Franklin ocupar o espaço de destaque como última atração do festival. Com o mic na mão e flow afiado, ela levantou bandeiras para o público cantar, dançar e pensar.

Natural de Ribeirão das Neves, a artista começou sua trajetória musical ainda em 2005, quando fundou o grupo H²S² (Hip-Hop Sobre Salto), ao lado de sua irmã Winy e do DJ Konja. O repertório atual é formado por canções de seu primeiro e único álbum, Anônima, lançado em 2015, além de improvisos e interpretações. No show do Inverno Cultural, interpretou Maria de Vila Matilde, de Elza Soares, dividindo o palco com a rapper são-joanense Mari P, convidada da noite.

O rap entrou muito cedo na vida de Tamara: à época da formação do H²S², tinha apenas 14 anos e, a partir de então, abraçou o rap como elemento catalisador de sua formação pessoal e tomada de consciência de sua raça. “Eu cresci ouvindo meu pai falar das questões raciais, mas eu não entendia porque era criança. Quando eu comecei a ouvir rap, tudo o que ele falava fez sentido”, destaca. Tanto sentido que, no cenário atual, Tamara não hesita em colocar o movimento hip-hop como fundamental para o crescimento pessoal da população preta e periférica. “O rap é um espaço para o jovem preto e periférico se expressar, ouvir seus pares, ter voz e um espaço de reflexão. O rap é o que educa, resgata, afasta a gente do crime”, argumenta.

Suas canções tocam temas como as narrativas de seu cotidiano, o empoderamento da mulher preta e periférica (“Eu sou uma mulher preta e periférica”), a denúncia do racismo, do machismo e demais opressões impostas às mulheres pela estrutura social e institucional do país, do mundo. Para Tamara, todavia, o hip-hop não é machista, por pregar respeito num ambiente dominado por homens, no qual as mulheres fatalmente vão se deparar com a cultura machista. “Assim como vários outros ambientes, esta é a luta dupla que a gente trava: combater a discriminação em todas as outras condições a que estamos submetidas”, enfatiza, fazendo referência a Luta dupla, canção de Mari P.

No palco, Tamara Franklin leva uma apresentação nos moldes tradicionais do rap. Acompanhada apenas pelo veterano e talentoso DJ Pooh e suas pickups, ela fez sua voz poderosa ecoar pelos quatro cantos da Praça do Matosinhos, reverberando nos ouvidos atentos do público, despertando a mais genuína vontade de cantar. As pessoas cantavam até mesmo os refrões e versos das canções que sequer conheciam. E que não eram suaves, como Minhas armas e Aparência do mal. O momento da participação de Mari P, psicóloga formada pela UFSJ, foi um momento agregador, num espetáculo sensível e empoderador. Fica para nós a cumplicidade como valor simbólico: duas mulheres negras ocupando lugar de destaque no encerramento do maior projeto de extensão da UFSJ.

Texto: João Vitor Bessa
Edição: Cibele de Moraes
Foto: Tamara Franklin, 30° Inverno Cultural UFSJ. Crédito: Isabela Roldão
Publicada em: 03/08/2018


Universidade Federal de São João del-Rei
Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários
2016/2018 - Todos os direitos reservados