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Na roda de samba com Aline Calixto

Um a um, os instrumentos começam a soar as primeiras notas. Assim começa a roda de samba. E então Aline Calixto pede licença, enquanto caminha graciosamente em direção ao centro do palco, sorrindo, radiante, e carregando em seu ventre um bebê com sete meses de gestação. A cantora se ajeita em um banco e de lá comanda a festa, entrando em sintonia instantânea com o público que compareceu ao pátio do campus Santo Antônio, no penúltimo dia do Inverno Cultural.

Neste ano, a sambista comemora dez anos de estrada. Neste período teve seu primeiro álbum, homônimo premiado como o melhor de 2009, pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, lançou três outros álbuns e emplacou uma canção, “Flor Morena”, na trilha sonora da novela “Fina Estampa” (Rede Globo, 2011). Nesta turnê, apresenta seus sucessos e as novidades de “Serpente”, lançado há dois anos.

A premiação foi um vetor que impulsionou a carreira de Aline, tornando sua figura conhecida dentro e fora de Minas Gerais. "Quando se é premiada, uma rede de expectativas começa a te cercar", explica a sambista. Surge a pressão da mídia, do mercado e do público, exercida sob o próprio momento de composição. “O processo de criação é algo atemporal, desenvolver algo sob pressão não compensa”, completa a artista, que busca seguir sempre sua intuição, mesmo que tenha que remar contra a maré.

Aos domingos, ela apresenta o “Papo de samba”, transmitido pela rádio Itatiaia. Apesar de vivermos numa era em que imperam as plataformas digitais, ela ainda acredita no calor do rádio. “A rádio ainda tem um papel fundamental, como as AMs, que chegam a locais onde nem sequer há conexão de internet”. Num programa de música comentada, ela abre espaço para figuras consagradas e também para novos talentos do samba mineiro. Ela faz questão de citar nomes como Marina Gomes, Julia Rocha, Fabinho do Terreiro e Ricardo Barrão. “É importante beber nas nossas fontes e referências, mas precisamos também beber do novo”.

Samba

Como é de praxe em toda boa roda de samba, o repertório de Aline Calixto perpassa sucessos que ficaram marcados no cancioneiro popular, consagrados na voz de Ivone Lara, Zeca Pagodinho e Dorival Caymmi. Ela também reserva um momento para homenagear sua madrinha do samba, a saudosa Beth Carvalho.

O público presente no campus Santo Antônio cai no samba, emendando refrões tão populares que todos cantam naturalmente. Sustentada harmonicamente por um grupo afianado de musicistas, ela solta sua voz e sua potência. E não há quem fique indiferente em uma das noites mais frias do inverno são-joanense, o calor do batuque aquece público que acompanhou com empolgação cada momento do show que durou uma hora e meia.

Além dos sucessos atemporais, o repertório traz um pouco de cada trabalho da artista. “Flor morena” estava também na boca do povo. Canções que tratam do romance e da dor de amor, mas também do cotidiano das pessoas, já que o samba reflete nossas alegrias, dores e anseios.

Machismo

De acordo com a cantora, o samba pode servir como uma plataforma de divulgação dos feminismos. “Vejo que as mulheres estão sendo protagonistas, mas elas já eram protagonistas e foram afetadas pela invisibilidade”. Como exemplo, é citada Tia Ciata, que ficou marcada na história por ser dona da casa onde surgiu o samba, mas que teve seus talentos de partideira e tocadora de pandeiro apagados.

Classificando o samba como “machista por origem”, ela conta sobre as amigas e parceiras musicais que sofreram com a invisibilidade, o assédio e outras situações machistas. Também reforça que as instrumentistas e compositoras têm pouca oportunidade para mostrar seu trabalho. “E as sambistas negras ainda sofrem muito mais; a cor da minha pele ainda me deixa em um lugar menos desconfortável”.

Sobre o atual momento político brasileiro, ela demonstra preocupação. Principalmente pelo risco da censura da arte e dos artistas, o que para ela estava relegado ao passado politicamente autoritário do país. “Se for preciso, mais uma vez a música dará voz aos nossos sentimentos de protesto”.

A relação com a universidade pública

Antes de atuar como artista, Aline foi professora de geografia. Formada pela Universidade Federal de Viçosa, ela demonstra preocupação por este momento em que as instituições de ensino e cultura são atacadas, seja pelo corte de verbas seja pela censura. “Eu fui universitária, tive acesso a todos os tipos de bolsas. Esse desmonte das universidades me traz muita tristeza”.

Em janeiro deste ano, ela se apresentou no festival Verão Arte Contemporânea ao lado da UFSJazz, a orquestra de jazz da universidade. Foi a primeira vez em que Aline dividiu o palco com uma big band, experiência que ela define como fantástica, mas desafiadora: “Você precisa se conectar não só com o maestro, mas com cada músico, pois somos todos engrenagens que precisam funcionar em sintonia”.

Esta não é a primeira vez que a artista se apresenta no Inverno Cultural da UFSJ. Porém, ela diz, esta é uma oportunidade especial por fazer parte de um evento que busca incentivar a arte e valorizar a cultural local: “Acho que precisamos dar as caras, realizar o evento mesmo que com poucos recursos. Porque corremos de risco de ver tudo isso afundar”.

 

Texto: João Vitor Bessa

Edição: Mauro Lovatto

Revisão: Joana Fhiladelfio

Imagem: Thais Andressa


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