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Experimentos para tempos sombrios

A Sala Preta recebeu boa parte das apresentações de Artes Cênicas durante o 30º Inverno Cultural UFSJ. A última delas, concebida pelo coletivo Toda Deseo, foi Ser: Experimento para Tempos Sombrios, encenada para uma plateia formada por estudantes, artistas e entusiastas do Teatro.

Em formato de monólogo, a montagem tem direção de Alexandre de Sena, dramaturgia de David Maurity e traz o ator Rafael Lucas Bacelar, que atua como porta-voz do discurso político e progressista cujo eixo temático são as questões de gênero e sexualidade.

O cenário da montagem

Alexandre de Sena explica que o objetivo do trabalho é uma “maneira poética” de atingir o público que se propõe a ir ao Teatro e a discutir a temática abordada. “Qualquer tentativa é necessária para conseguirmos dialogar com as pessoas, seja no momento do espetáculo, seja depois dele”, explica o diretor. Após a apresentação, diretor e ator entabularam roda de conversa com os presentes.

No Brasil, os índices de violência contra a população LGBT são alarmantes. Além da violência simbólica e institucional, que os priva do exercício de seus direitos e cerceia suas liberdades individuais, há ainda a violência física. Os registros oficiais apontam que a cada 19 horas uma pessoa LGBT é morta ou comete suicídio no país. No ano passado, 445 pessoas perderam suas vidas

Ao longo de uma hora de espetáculo, Rafael interpreta um texto que varia entre devaneios sobre a vida e o cotidiano e a crítica social direta e objetiva. Em suas falas, transparece o empoderamento e também a bravura de quem já não tolera ser alvo da cega e raivosa violência de gênero.

O ator passeia pelo palco ornamentado com poucos elementos: uma grande lona divide o cenário em dois, e sob ela vemos um banco em formato triangular, um par de sapatos, uma cabeça de manequim, uma arara que segura um véu de vestido de noiva, um pedestal com um microfone e uma banqueta que apoia uma bacia até a metade com tinta branca. Enquanto interpreta o monólogo, Rafael pinta de branco seu corpo nu, colocando-se em tela.

“Não há como fazer arte sem fazer política”, pontua Alexandre. “Nesses dois anos de golpe, percebemos a perda de direitos e de garantias que tínhamos conquistado, o aumento da violência contra nós”. Tempos sombrios para as pessoas que têm de lidar diariamente com o pesado fardo do medo e com as feridas abertas por uma sociedade construída com base no ódio, na intolerância e no desrespeito à sexualidade alheia.

 

Texto: João Vitor Bessa
Edição: Cibele de Moraes
Foto: espetáculo “Ser: experimentos para tempos sombrios”. Crédito: Thais Andressa
Publicado em: 03/08/2018


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