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“A gente canta Zumbi”: uma noite para relembrar Palmares

Neste Inverno Cultural, o coletivo Sinherê apresentou o musical A gente canta Zumbi… e outras histórias, com o objetivo de narrar a construção, ascensão e queda de Palmares. O Quilombo do Palmares é um símbolo histórico para o Brasil e especialmente para a população afro-brasileira por representar a luta por liberdade, contra a estrutura escravagista e o racismo.

O passar do tempo serviu para inserir o símbolo de Palmares no imaginário nacional, transformando Zumbi em um herói nacional, para que seja sempre relembrada a história dos escravos que se rebelaram e fugiram para as matas, onde ergueram suas comunidades autônomas, livres dos grilhões e da chibata.

Localizado na Serra da Barriga, que atualmente é território do estado de Alagoas, Palmares era um grupo de 12 quilombos, conectados por trilhas construídas nas matas. De acordo com os registros históricos, foi erguido em 1602 e derrubado 1692, depois de resistir a 25 ataques orquestrados pelas elites políticas que por fim se aliaram ao bandeirante Domingos Jorge Velho para destruir as comunidades. No Quilombo deoMacaco, o maior e mais populoso entre todos, viveram Ganga Zumba e Zumbi.

A gente canta Zumbi

O elenco do espetáculo apresentado no Inverno é formado por estudantes de Teatro da UFSJ e foi dirigido por Rosana Machado, 37, atriz e professora do Instituto Federal Sudeste de São João del-Rei. No total, são 13 pessoas envolvidas na montagem, 10 atores e atrizes ao lado de três músicos, além da equipe que atua nos bastidores.

Trata-se de uma adaptação do musical escrito por Augusto Boal e Gianfrancesco Guarnieri e musicado por Edu Lobo, que estreou em 1965, apresentado pela companhia teatral Arena. Para o coletivo Sinherê, a adaptação foi um desafio não apenas artístico, mas também político, já que o roteiro original foi construído a partir de uma perspectiva branca, e o coletivo trabalha com o intuito de contar essa história sob uma óptica afro-brasileira. A princípio, essa adaptação foi apresentada como Trabalho de Conclusão de Curso de Sebastian Junior, também estudante de Teatro e ator.

O musical

Primeiramente, um griot entra em cena, fumando seu charuto e caminhando de trás da plateia em direção ao centro do palco, ao som dos tambores. É ele quem introduz a história que há de ser contada por meio do texto falado, do canto e da dança. O tempo corrido não é especificamente delimitado, mas a narrativa se inicia em um momento anterior à fundação dos quilombos, fato que passa pela contribuição do líder Ganga Zumba.

Trata-se de um espetáculo essencialmente político, tanto pelos atores que o compõem quanto pelo tema em questão. Nos diálogos de cada cena, as personagens não deixam de enfatizar que a estrutura escravocrata brasileira era sustentada pelos interesses das elites latifundiárias e econômicas, da Igreja Católica e também da própria população, que se beneficiava do trabalho forçado e desumano exercido pelos africanos e seus descendentes.

As suas críticas também não se atêm ao passado, mas fazem questão de relacionar o tema com o atual momento brasileiro, sua conjuntura política e social. Por exemplo, o texto cita números do Atlas da Violência, que aponta com dados científicos que a população afro-brasileira é a principal vítima dos homicídios no país, em especial os jovens homens negros. Símbolo político da negritude, Marielle Franco tem seu nome mencionado, assim como Carolina Maria de Jesus, Nilma Lino Gomes e Elza Soares, referências nas artes e academia.

Uma outra perspectiva da obra

De acordo com a diretora, o roteiro original precisou ser adaptado ou modificado, já que foi construído a partir da óptica de pessoas brancas que, inclusive, deram à obra um ar pessimista, entristecido. “Esse foi um desafio para mim, como mulher negra que acredita, pesquisa e trabalha com o teatro negro”, afirma. Para adequar o trabalho à realidade vivida pelo elenco, foi preciso adaptar e até retirar trechos do roteiro. “Isso fez com que a montagem tivesse a cara que a gente desejava, trazendo de forma enfática a presença dessas pessoas negras”, completa.

Os elementos da oralidade e da tradição cultural afro-brasileira foram acrescentados ao texto, detalha a diretora, com a contribuição dos próprios atores e atrizes do elenco, que têm relação com o candomblé e a congada. A musicalidade do funk também está presente, com o intuito de se aproximar da realidade da atual juventude afro-brasileira. Para Rosana, o símbolo de Palmares permanece atual e presente em nosso cotidiano: “Palmares é grande, Palmares cresceu. Se estamos aqui, é graças à resistência de Palmares e outros quilombos que a população negra criou.”

Também estudante e ator do musical, Rodolfo Rodrigues, 22, destaca que o elenco é majoritariamente formado por pessoas negras e não brancas e defende que as modificações no roteiro são naturais, a partir do momento em que trazem essa história para a realidade atual, marcada, por exemplo, pela inserção de negras e negros nas universidades públicas. “É um elenco que se impõe no fazer teatral, colocando suas narrativas e suas dores, nesse espaço legitimado por essa narrativa que eles já carregaram”, completa.

Em cena, Rodolfo interpreta o próprio Zumbi dos Palmares e também um dos griots. Na tradição africana, griots eram os contadores de história, que tinham o importante papel social de transmitir a herança e a tradição às gerações posteriores. Na peça, essas figuras (vividas por homens e mulheres) são os narradores da história. “Quando falo o texto, não estou falando sozinho, mas com várias pessoas que me formaram para que eu falasse esse texto. Quem está falando ali a todo tempo sou eu, ator, através de Zumbi”, completa Rodolfo.

 

Texto: João Vitor Bessa

Edição: Rogério Alvarenga

Revisão: Joana Fhiladelfio

Imagem: Milena Fagundes


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